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Memorando sobre a cerâmica


access_time 23,Dezembro,2019


ceramica artistica de autor
Cozedura forno a lenha Jean Ferrari 2018

A falta de informação justa e adequada conduz inevitavelmente a erros de entendimento.

Houve, continua a haver regularmente eventos ligados à cerâmica, em Caldas da Rainha no contexto da “Molda”, iniciativa inserida no programa europeu de dinamização da cerâmica contemporânea, sucedem-se esporádicas manifestações. De  momento está a decorrer uma exposição de escultura cerâmica na galeria do Centro Cultural de Congressos. Participei recentemente com uma dezena de colegas ceramistas numa residência artística em Cerdeira no quadro do programa cultural das aldeias de xisto. Em vários espaços tanto públicos como privados em Alcobaça desenvolvem-se também exposições individuais ou coletivas inseridas ou não no programa europeu “Bom Dia Cerâmica”. Está a decorrer actualmente em Aveiro a Bienal Internacional de Cerâmica Contemporânea focada na escultura cerâmica.

E não só, também no âmbito dos programas europeus estão a ter lugar conferências e debates promovidos pelos parceiros portugueses de uma iniciativa denominada “Projeto Clay” com fins de prestar apoio ao sector cerâmico alargado.

Podíamos estar satisfeitos com o que não hesitarei  a qualificar de aparências. Podíamos estar satisfeitos se houvesse planificações fruto de concertações, continuidade, objectivos bem definidos a longo prazo e apoio a iniciativas individuais e coletivas vindas dos próprios autores. Tal não é o caso. A maior parte das iniciativas provêm de constrangimentos políticos e não de uma avaliação da realidade da cerâmica criativa contemporânea que continua algo imperceptível e indefinido. Assim tal como foguetes de um fogo de artifício, os eventos iluminam durante alguns instantes o céu da cerâmica criativa de autor, permanecendo o restante do tempo na escuridão. Essa é a realidade de um facto bem conhecido pelos colegas que praticam a cerâmica criativa: a nebulosidade cerâmica. O seguinte por duas razões: a primeira porque não há diferenciação entre as várias vertentes da cerâmica criativa contemporânea e a confusão que resulta dessa situação prejudica o nosso entendimento da identidade de cada uma delas. A segunda razão, explicando a tal nebulosidade, encontra-se no simples facto de que uma vez as luzes apagadas os ceramistas são meramente esquecidos, ignorados.

As Fábricas

Falando de cerâmica, quem vem à frente são as fábricas por terem um papel económico e portanto um impacto sobre a sociedade, muito importante. Politicamente é o que interessa. Todavia a política que guia a indústria tem poucas considerações humanas, o que lhe importa é a optimização dos meios de produção, a competitividade e a adequação a um mercado; uns tantos parâmetros  alheios ao criador individual que se orienta segundo a sua inspiração, os seus próprios critérios e uma filosofia de vida.

Ao lado da indústria existem dois grupos com, novamente, actividades bem diferenciadas. De um lado oficinas artesanais de pequena produção em série, do outro lado, autores. 

As oficinas dividem-se em quatro sectores: as que produzem bugiganga, as que produzem peças de olaria tradicional, as que reproduzem peças antigas e as que produzem peças utilitárias contemporâneas em série. A azulejaria muito desenvolvida em Portugal, sendo um domínio à parte.

A produção dessas oficinas consiste no que se pode ver em lojas essencialmente viradas para um público de turistas ou de pessoas à procura de algo “giro”, diferente ou insólito. Trata-se de uma produção relativamente importante realizada por pessoas que têm o estatuto de artesãos e que trabalham num relativo anonimato. Os artesãos inspiram-se tanto na tradição como na actualidade ou ainda na história e nas características folclóricas de uma região. São ceramistas que se inserem já num contexto mais humano do que o da indústria. Também já podem identificar os seus clientes.

Infelizmente encontram-se em vias de extinção os que produzem olaria tradicional; os que sobrevivem “perderam a alma”. Conheço uma pequena olaria onde os oleiros tornaram-se robôs produzindo centenas de peças em série à roda para depois serem pintadas ou vidradas por um intermediário que as vende ao “Ikea”…

Os Artistas Plásticos

A última categoria de ceramistas, a que interessa, quando falamos de cerâmica criativa contemporânea, tem hoje em Portugal um peso económico insignificante mas não é por esse critério que se mede a sua importância. Quando se fala dessa cerâmica também importa fazer uma distinção entre dois grupos principais: de um lado os ceramistas oleiros que produzem peças (únicas) utilitárias ou decorativas, fruto de um trabalho criativo pessoal independente, a partir de múltiplas fontes de inspiração; do outro os ceramistas que são artistas plásticos para os quais o barro ou as pastas cerâmicas são matérias primas que utilizam para criar obras esculturais na sua maioria conceptuais. Obviamente trata-se de duas realidades cerâmicas muito diferentes uma da outra embora um ceramista possa ser tanto oleiro como artista plástico, tal como o músico que pode tocar numa orquestra sinfónica e mediante alguma adaptação, sobretudo de ordem psicológica, num conjunto de jazz. O que muda com os autores não é só a natureza da produção, é fundamentalmente o espírito no qual se desenvolve  o acto criativo. Essa diferenciação é reconhecida em praticamente todas as manifestações cerâmicas que decorrem pelo mundo fora.

Cá em Portugal o próprio conceito de cerâmica criativa encontra-se imerso numa verdadeira nebulosidade e é cada vez mais exclusivamente associado, no melhor dos casos, a produção de obras escultóricas conceptuais ou seja, obras cuja forma vem submetida à ideia. Tal um pequeno poema cada obra é fruto da experiência de cada indivíduo de tal maneira que sendo infinito o espaço criativo, o barro torna-se uma matéria predileta de expressão para cada vez mais artistas plásticos. Todavia ser ceramista nessas condições não é uma profissão diferente da de ser poeta e raríssimos são os poetas que conseguem viver das obras publicadas. E de facto as três ou quatro dezenas de artistas portugueses que se dedicam regularmente a este meio de expressão têm uma outra actividade profissional para os sustentar.

Importava que houvesse uma política de apoio ao desenvolvimento das artes plásticas? Sim claro mas entramos agora no domínio cultural. Obviamente não se pode criar grandes poetas mas podem ser criadas as condições para favorecer a emergência deles. Nas escolas os alunos deviam aprender a ler uma obra de  arte seja ela conceptual ou não tal como se aprende a comentar um poema. A sustentabilidade da criação depende disso. Os objectivos culturais dos quais, por definição, um deles é desenvolver o espírito crítico, não se misturam com preocupações comerciais, políticas ou as actividades de entretenimento. Se tal for o caso a cerâmica criativa , entretanto ficará uma actividade artística aleatória até perder todo o significado. Assim irão surgindo aqui e ali obras escultóricas algumas das quais serão exibidas; exibidas porquê?

Os Irredutíveis

Aquela mão cheia de criativos que fazem pratos, chávenas, tigelas, taças, travessas, etc. como nunca os temos visto, pelo menos sabem que o que fazem vai ter alguma utilidade. São cerca de mil em França, cá são apenas visíveis. Na Coreia do Sul já a sua produção tende a substituir a das fábricas. Aqui são excepção, quase anormalidade, deviam de ter desaparecido completamente devorados pelo monstro do consumismo barato. Mas lá estão alguns, teimosa manifestação das leis da natureza. O que é que os empurra contra ventos e marés a fazer uma tigela à sua maneira? Simplesmente porque para eles criar peças com um significado imaterial que transcenda considerações meramente utilitárias é uma necessidade, porque criar é uma escolha de vida, uma paixão, a consciência que além das aparências existem outros valores, porque através de uma tigela um ser humano dirige-se a outro ser humano, porque uma tigela pode ter um significado tão rico como o de uma obra conceptual. Assim (-será que vale mesmo a pena sublinhá-lo?) os “autores” encontram-se diametralmente opostos à noção de optimização  e a qualquer processo de pesquisa de artifícios sedutores submetidos a tendências efémeras. 

Mais do que uma escolha de vida a escolha do criador individual é uma escolha de filosofia de vida, num mundo cada vez mais desumanizado tal escolha faz todo o sentido. Os autores não precisam de um apoio qualquer, sabem o que querem e como o querem mas tal como uma espécie em via de desaparecimento, deviam ser protegidos; Preocupamo-nos com insetos em vias de extinção, não nos preocupamos com o humano em vias de extinção; Não há justificação nenhuma para nos comprometermos com tal paradoxo. Há obviamente algo errado no nosso sistema social  e as entidades cujo papel é desenvolver a suposta actividade cultural não estão a cumprir o seu verdadeiro papel: O de informar, ensinar, educar, ser os autores do desenvolvimento das qualidades humanas, entre outras, porque os “criadores” além de serem protegidos precisam de ser percebidos. Semeia-se numa terra preparada para receber semente, hoje a semente deita-se ao vento e cai onde calha, semeia-se numa terra estéril. Já ninguém ignora que os conceitos de optimização , lucro e outros do género conduzem a uma desertificação da terra mas também a uma esterilização da mente.

É Edgar Morin que nos diz, haverá sempre uma percentagem da população, embora no pior dos casos reduzidíssima, refractária à esterilização, ela é necessária,  indispensável, diz ele, faz parte do equilíbrio humano, é um reflexo salvador da natureza: toca-nos a nós perceber. 

Mostrar o nosso entendimento da importância ao nível tanto artístico como humano, entre outras produções fruto da criação individual, da cerâmica de autor, seja ela utilitária ou conceptual, é mostrar que queremos uma sociedade de seres espiritualmente vivos e cultos e não uma sociedade de seres esterilizados.

Tudo isto para chegar a que conclusão? Simplesmente para perceber que ,se é que seja mesmo necessário, a cerâmica de autor tal como qualquer forma de arte criativa não se inscreve, propriamente, num contexto económico empresarial utilitarista mas prioritariamente num contexto cultural, apesar do facto de uma jarra de autor que colocada ao lado do quadro de um grande mestre possa também conter flores, o que aparentemente incomoda o espírito ocidental.

Nas criações tanto do oleiro contemporâneo como do artista plástico há obviamente uma dimensão ética na estética.

 Jean Dominique Ferrari



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